Só para deixar bem claro, estou aqui contra a minha vontade. Hoje é sábado. Não é dia de ninguém decente estar no computador, ainda mais escrevendo textos bonitinhos e felizes. Quem esse granjeiro pensa que é para me obrigar a fazer essas coisas?

Ontem foi o aniversário dele. Teve festa aqui no galinheiro e ele não teve a hombridade de me convidar. Nem sei o que é hombridade, só usei essa palavra porque é bonita. Enquanto o som rolava solto lá na casa dele, eu estava aqui, desolado, sozinho no meu poleiro.

O pior de tudo é que ele deixou a gente com fome. Nem um grão de ração. A farra foi tão boa que ele ainda não acordou. Ou seja, tem quase 36 horas que estou de jejum forçado. Só Deus sabe o quanto fico mal humorado quando estou com fome.

Pensando bem, porque a gente deveria comemorar o aniversário daquele patife? Primeiro: ele nem dá atenção direito para o galinheiro. Tem vezes que ele fica 15 dias sem aparecer por aqui. Isso lá é consideração? Segundo: sempre dá uma desculpa esfarrapada que está muito ocupado e não pode vir aqui. Tenho apenas uma palavra para ele: fodas!

Ele até tem qualidades, mas os defeitos são insuportáveis. Não sei como ele ainda tem amigos que vêm aqui no dia do aniversário dele. Sério. Ele consegue ser muito insuportável às vezes. Quando o humor está ácido, então, ele vem e desconta tudo em mim.

Na minha terra, esse mal humor tem outro nome. Falta de mulher. No alto da minha experiência como frango garanhão reprodutor da granja, já sentei para dar algumas dicas para ele, mas quem disse que ele me ouviu? Ele é mais frango que eu. Disso não tenho nenhuma dúvida.

Mas deixa para lá. Apesar de todos os problemas o granjeiro é um cara legal. Nem tô mentindo. Mereceu ter feito uma mega comemoração ontem. Mas se ele não trouxer minha comida logo, nem quero estar na pele dele.

Vou desativar meu antigo blog, o “Memórias de um frango”. Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Este foi o primeiro texto que escrevi para mim mesmo de aniversário. Isso virou uma tradição aqui neste blog, mas na época era algo inédito. Foi divertido me xingar em uma história. Tenho certeza que eu estava merecendo.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.