A semana mal começou e lá vou eu reclamar. Sei que o dia tradicional de #mimimi é domingo, mas hoje é quinta e estou entediado. Aquele galo caquético me passou uma nova função no treinamento de “como ser um galo”. Agora sou vigia. É aí que me pergunto: por que diachos o galinheiro precisa de um vigia? A gente tem cerca de arame farpado, portões, armadilhas contra ursos, alarmes, alertas contra tsunamis e um açude no meio. Precisa de mais coisas?

Há uma semana estou exercendo essa nova função e, definitivamente, ela não é nada empolgante. Significa ficar parado em cima do telhado, olhando para os lados, vigiando um lugar onde não acontece NADA. Absolutamente NADA!

Mentira. Reza a lenda que um vez, há muito tempo, um teiú (pra quem não sabe, é um lagartão) invadiu o galinheiro para tentar comer alguns ovos. Dizem que foi uma confusão de proporções épicas. O granjeiro veio correndo, as galinhas desmaiaram, o galo de plantão se escondeu. Foi uma vergonha. Mas na minha gestão como vigia, nada disso aconteceu. Aliás, o mais próximo de uma invasão que aconteceu foi quando aquela galinha gorda resolveu vir me visitar. É sério, quando ele subiu, cheguei até a ouvir um CREC nas telhas. Foi o dia que senti mais medo em toda a minha vida.

Pensa comigo. O telhado quebra e caem os dois. O lugar é muito alto e não tenho a menor habilidade com as asas. Quando eu era um pintinho, tentaram me ensinar a usar as asas para tentar planar e quem disse que consegui? É um dos maiores traumas da minha infância.

Calma, do que eu estava falando mesmo? Ah sim, da minha fome. Estou aqui parado há horas. Se sair, aposto que aquele galo maléfico vai aparecer e me xingar. Aliás, para trazer comida aquele infeliz não serve, mas aposto que ele deve me monitorar via radar para saber quando saí do posto.

Enquanto isso meu estômago fica grudado no intestino e a barriga dói, vazia. Meu maior sonho era ver aquela galinha gostosa do poleiro de cima subindo aqui no telhado, com um delicioso bolo de chocolate para saborearmos juntos, sentados e olhando para o por-do-sol. Ah, que sonho.

Nem fala em sonho que vou começar a cochilar aqui de tanto tédio. Espera… acabei de notar uma coisa interessantíssima! Ficar aqui em cima tem suas vantagens. Tenho uma visão panorâmica do galinheiro inteiro. Dá pra ver o açude, os poleiros. Olha, aquele ali é o meu poleiro! Então o de cima deve ser o da galinha gostosa. Mas que cômodo é aquele que não conheço? Será que… meu deus, é o banheiro! Alguém me empresta um binóculo desesperadamente? Estou começando a acreditar que minhas tardes no telhado vão ser bem mais produtivas.

Vou desativar meu antigo blog, o “Memórias de um frango”. Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Quando participei da empresa júnior de Comunicação da UFMG, uma das tarefas era o plantão. O meu sempre caia na sexta à tarde, quando nada acontece da faculdade. Essa crônica surgiu em uma dessas situações de tédio.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.