Não conheço ninguém que goste de ficar gripado. Ter um dia para ficar descansando no poleiro é uma coisa, mas quando o bico continua escorrendo por mais de uma semana, minha vontade é só levantar as asas e esperar deus me levar. Não tem nada pra fazer aqui. Não posso pegar friagem senão pioro. Não posso colocar a pata no chão porque tá frio. Não posso falar porque a garganta dói. Odeio ficar gripado!

É a mesma sensação de ficar preso numa gaiola. Tudo bem, nunca fui engaiolado, mas deve ser parecido com isso. Só que um pouco mais apertado. E sem uma coberta quentinha. Ou uma televisão. Tá bom, não tem nada a ver com uma gaiola. Pelo menos no meu poleiro dá pra andar de um lado pro outro enquanto continuo entediado.

Queria saber quem foi o filho da puta que falou que a gripe do frango estava terminada. Esse desgraçado mentiu. É só olhar pra minha cara. Quando ainda era um perigo de pandemia, todo mundo se preocupou. Quando é um caso isolado no Brasil, ninguém tá nem aí.

Claro, deixa o pobre frango sem valor morrer. Quem se importa com ele? Isso mesmo, me deixa de molho no poleiro. Epa, falei molho? Desculpe, não gosto de palavrão nos meus textos. Deixa eu tentar reformular a frase: me deixa de quarentena no poleiro. Tá, não melhorou muito. Quarentena é muito tempo, mas é melhor que aquela-palavra-que-não-deve-ser-escrita.

O pior de tudo é o bico entupido. Aliás, é o bico que fica entupido ou é outro orifício especial para entrada de ar? Ah, tanto faz, nunca fui bom nas aulas de anatomia aviária e isso explica muito sobre minha vida amorosa. O que importa é que esse troço tá entupido. Não consigo respirar, não consigo falar direito. Tô trocando os Ps pelos Bs e com uma voz fanha. Nem cantar de manhã eu consegui essa semana.

Essa foi a parte boa de ficar doente. Quem está fazendo isso por mim é aquele galo velho caquético. Todo dia torço para que ele caia de cabeça do telhado e morra. O canto dele é irritante pra caralho. Sei que o meu não é dos melhores, mas pelo menos melhor que ele consigo fazer. Outra parte boa é que as aulas com ele estão suspensas até eu melhorar. Se aquele velho pegar gripe, capaz de evoluir para uma pneumonia e morrer. O que não é uma ideia ruim, inclusive.

Acho que nem com um estímulo desses aguento continuar de molho. Droga, falei de novo. Espero que o granjeiro não me escute e queira me comer no almoço de domingo. Imaginem só virar um frango ao molho pardo? Eca, não gosto nem de pensar nisso. Deviam mandar era aquela galinha gorda no meu lugar. Sabe o que aquela abusada fez? Me mandou um ramalhete de espigas de milho! Que mau gosto! Já não tolero as indiretas que ela me dá e ainda por cima ela me oferece milho de presente?

Não há nada que eu mais odeie nesse mundo do que milho. Ela podia ter colocado aquela bolota amarela na panela e me dar um baldão de pipoca. Não ia mudar em nada o meu conceito com relação a ela, mas pelo menos o presente ia ser útil.

Calma aí, vou ter que parar a crônica um pouco porque tem alguém chegando pra me visitar. Não quero atender nem a pau. Vô fingir que tô dormindo até seja lá quem ir embora.

Ufa, foi embora. Mas parece que deixou alguma coisa pendurada no poleiro. O que será? Deixa eu bisbilhotar um pouco.

Merda, só dá pra ver a silhueta saindo da porta. Merda! É a galinha gostosa do poleiro de cima. Por que eu fingi que estava dormindo? Burro!

Vou desativar meu antigo blog, o “Memórias de um frango”. Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa é mais uma crônica de 2008 e, se me lembro bem, escrita após uma gripe que me derrubou por uma semana. Na época o mundo vivia o medo da gripe do frango e, lógico, tive que trazer o tema para cá.

Começou a escrever em 2008 para fugir de uma rotina massante no galinheiro e descobriu que era bom naquilo. Ou pelo menos achava que era, já que nunca conseguiu dar nenhum beijo na boca por seus textos. Dizem por aí que continua virgem, mas ele nega.