O Monza 94 tremeu inteiro quando o ponteiro de velocidade atingiu o 120. Cheiro de pneu queimado a cada curva, uma cantada inconfundível vinda da pressa. Não sabia se seu carrinho velho e bonina aguentaria a pressão, mas precisava chegar logo. Precisava encontrá-lo.

Os dois eram muito novos quando deram o primeiro beijo. Toda vez que ela passava pelo estacionamento do prédio, conseguia vê-lo, tímido, enrolando as mãos enquanto se declarava. Foi ela que tomou a iniciativa e se aproximou. Ele nunca tinha beijado ninguém. Tremia quando os lábios se encontraram pela primeira vez. Os dois tinham 14 anos, nunca se esqueceriam daquele momento.

De óculos escuros e cabelos soltos, ela dirigia com a concentração máxima apenas na estrada. Evitava pensar em outra coisa, não podia pensar em mais nada. Ia pela esquerda e piscando o farol para quem estivesse em seu caminho. O Monza parecia se desmontar inteiro quando o ponteiro bateu o 130. Era a maior velocidade que já tinha colocado. Não estava com medo, precisava chegar.

Desde que começaram a namorar não haviam passado mais de dois dias sem se ver. Morar no mesmo prédio contribuía bastante para isso. Às vezes era uma visita mais demorada, com tempo para um filme e uns carinhos. Outras era só um beijo rápido e saber como foi o dia. Sempre estavam lá, juntos. Até que ele decidiu mudar para outra cidade. Faria o curso dos sonhos na melhor universidade do país. Em outra cidade. Outro estado. E a deixaria ali.

Faltava pouco mais de 60 quilômetros para chegar. Ainda não sabia o que diria para ele. Não avisou que estava indo. Nem queria se preocupar com isso no momento. A estrada, focada na estrada. Foi ele que a ajudou a escolher aquele Monza. Deixou ele se preocupar com a parte técnica enquanto ela se atentava apenas com a cor. Foi preciso alguns ajustes no carburador furado, alinhamento, balanceamento e o carro estava como novo. O namorado ficaria orgulhoso ao saber o quanto estava aguentando a corrida.

A mudança não foi uma coisa repentina. Os dois passaram semanas discutindo essa possibilidade até se convencerem de que era a única alternativa possível. Foram várias brigas, discussões e reconciliações. Agora ele já estava fora por quase um ano e os dois não se viam há 43 dias. Até as conversas por Skype reduziram. Período de provas, ele dissera. Ela não acreditou. Havia algo estranho no tom de voz, na forma como se afastou. Sabia que ele não estava bem, que precisava da ajuda dela.

Passou a 140 no radar e não se importou. Aliás, nem reparou que tinha um radar. Faltava muito pouco para chegar à cidade dele e não reduziria a velocidade por nada. A tremedeira do carro era o lembrete de que o namorado não estava ali para controlar o pé pesado dela. Sentia saudades dele com cara de tensão enquanto ela dirigia. Dos pequenos palavrões que soltava quando ela atingia os 80 por hora. Imagina o que ele diria agora? Queria sentir a presença dele no banco do lado.

Os dois perderam a virgindade juntos. Tinham 16 anos e ela havia bebido pela primeira vez em uma festa. Se sentindo responsável, ele a guiou para casa e cedeu a própria cama para que ela ficasse confortável. Fez questão de acordar mais cedo no dia seguinte e preparar um kit ressaca, com direito ao café da manhã mais caprichado que já fizera. Os dois passaram o dia juntos e acabou acontecendo. Foi sem planejamento e desajeitado, como toda boa primeira vez. Um momento que os dois sabiam que se amavam. Ele estivera ao lado nos piores momentos, sempre que ela precisou. Agora era a vez dela estar ao lado dele.

Quando chegou à rua em que ele morava, estacionou sem saber o que fazer. Com o coração dilacerado, pegou o celular com um misto de saudade e medo. Queria saber o porquê dele estar estranho. Queria ajudar. Mas tinha medo do problema ser ela, algo que fez e não sabia. Ou algo que ele fez e não queria que ela soubesse. Agora não importava mais, tinha dirigido 350 quilômetros para encontrá-lo e não deixaria o medo dominar. Deu a buzinada combinada entre os dois e mandou uma mensagem: “Amor, desce. Tô aqui embaixo. Vem andar de carro velho comigo que a gente precisa matar a saudade”.

Não demorou dois minutos para ele descer, ainda sem camisa e com cara de espanto. Ela sorriu. Ele sorriu de volta. Ia ficar tudo bem, sabia disso.

Para ler ouvindo: Carro Velho – Banda Eva

Esta crônica faz parte do Music Experience

Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.